... e a borga ainda está para vir!!! ;)
segunda-feira, abril 30, 2007
sábado, abril 28, 2007
Quantas horas te sobram?
Sabes quanto tempo tem um dia vazio de horas? Sabes quantos dias tem o tempo? Sabes quando as noites não chegam a amanhecer? Sabes quando começa o fim do que só vai no princípio? Dizes que sim, mas não sabes. Dizes por dizer, porque te enganas, porque vives nesse equívoco de que o tempo tem uma aritmética definida. E vives um dia atrás do outro como se os dias existissem como medida segura do Tempo, que é infinito por definição. Eu não sei olhar para o relógio e dizer, como tu, o tempo que nos passa, o tempo que nos falta e o tempo nos esgota. Sei apenas quando fico fora de horas, quando sobro aos dias e escapo às noites para chegar ao que me falta. Porque eu estou sempre ausente dessa medida a que te dedicas com determinação, que te organiza essa existência controlada em que te escondes para não te pensares no que te adivinhas e no que já sabes de ti. Porque é mais fácil viveres seguindo em círculo os ponteiros do relógio do que traçares uma linha recta em que te sintas verdadeiramente. Porque precisas de distrações penduradas nas horas que passam por ti. Porque sabes o que acontece quando te esqueces das horas e te regressas sem restrições. Porque não queres essa liberdade de ser e de sentir que te torna frágil por não estares habituado. Não queres ser tu, queres ser a pessoa que te inventas aos outros. Queres acontecer sem custos nem riscos, como se a vida fosse uma lista de tarefas simples, sem sobressaltos nem imprevistos. Desejas e não sabes ter. Sabes usar e deitar fora. Sabes desperdiçar o teu tempo no tempo de toda gente. Existes numa fita do tempo, espartilhada em ti. Quando olho para trás, tenho pena de não te ter avisado que não vives para sempre, que não és infinito. Talvez percebesses que quando te quiseres encontrar poderás não ter tempo suficiente para ficares finalmente em ti a tentar cumprir o que te falta para seres feliz. Mesmo que andes sempre a horas certas, às vezes é demasiado tarde.
sexta-feira, abril 27, 2007
A imperfeição humana
Que fazer com os dias em que nos sentimos ausentes de nós mesmos? Que fazer dos momentos em que nos sentimos fracos, básicos e pouco sofisticados nas ideias? Que fazer daquele instante em que falhámos redondamente no que quisemos dizer e tudo parece descarrilar a partir daí? Que fazer da nossa imperfeição como pessoas? Eu não sei. Não vou saber nunca, porque sou humana e a minha condição enquanto ser humano é aquilo que em arte se designa 'work in progress'. E como 'obra não acabada' que somos todos, somos muitas vezes inconvenientes, despropositados e injustos. Está na nossa natureza, estamos em permanente construção. Na melhor das hipóteses, vamos aprendendo à custa do erro. Assumir que erramos é um passo em frente no que nos queremos edificar. Errado seria rejeitar as fraquezas em vez de trabalhá-las com a fé de, amanhã, acordarmos melhores pessoas. Mas não somos apenas imperfeição, temos coisas boas que nos espreitam e que damos aos outros sem reservas, em acto de generosidade absoluta. Por vezes, somos magnânimos na entrega e inteiros na partilha. Somos muitas coisas ao mesmo tempo e coisa nenhuma de uma só vez, porque não existem momentos absolutos e, mesmo que existissem, nunca chegaríamos a ser completamente perfeitos ou estupidamente imperfeitos. E nos dias de alma vaga, é só isso que temos de entender para relativizar as horas cinzentas em que nos perdemos num nevoeiro de coisas que só têm a importância que lhe quisermos dar, porque, em si mesmas, nenhuma importância têm. Compreender os outros é compreendermo-nos a nós mesmos. Ninguém é perfeito e ainda bem. Perdia-se a graça, a espontaneidade e a condescendência natural. E se fôssemos perfeitos seríamos tudo menos encantadores. Seja como fôr, peço desculpa por todas as vezes que fico aquém das expectativas.
quinta-feira, abril 26, 2007
Sombra
De mãos enormes erguidas no ar, a sombra caminha rente ao chão. A sombra não dá nem sabe segurar porque a inconsistência da matéria que a define torna inviável uma vontade própria e a libertação do corpo em que permanece condenada. A sombra é um esboço de vida, uma projecção de um corpo contra luz, a impalpabilidade do ser que existe e que passa ao lado. A sombra é retrato de gente mas nunca será mais do que isso e por isso se distorce e se prolonga pelo chão. E nesse vazio de ser e na inconsistência de querer eu te encontro e te quero resgatar. Dei um passo e a distância não diminuiu. A ponte que seguro entre os dedos de nada me serve, tenho de ficar aqui na sombra da promessa que fiz de não atravessar. Suspensa nesta ponte de silêncio que me estendes e que esperas de mim. Que fazes tu por amor?...
domingo, abril 22, 2007
Visão de ti...
Foi como vapor. Fechei os olhos e surgiste-me. Tentei agarrar-te. E ao tocar-te os meus dedos mergulharam em ti. Mas faltava o tacto. O cheiro da chuva, lá fora, aguça os sentidos. Rebolo na cama, mordo os lençóis. Danço com a tua imagem na minha cabeça. Mas falta o toque. Um olhar de relance à janela. Cinzento. O ar parece ficar pesado. E as cores díluem-se na sombra que aos poucos se apodera destas quatro paredes. O respirar arrasta-se lentamente. Compassado ao ritmo dessa batida cardíaca. Sinto-me leve. Flutuando entre decibéis de sentimento. E de cada vez que fecho os olhos, sempre a tua imagem...
Define-me a palavra saudade.
Fazes-me falta. Tornei-me dependente do prazer que poderás ser tu. Tocar-te. Cheirar-te. Olhar-te. Sentir-te... Viver cada um desses sentimentos e misturá-los naquilo que me deixa de rastos. Essa paixão. Quero-te! E esse desejo alimenta.
O que é o tempo?
Escrevo e reescrevo os lamentos e os desabafos. Leio e releio as mensagens. Oiço música vezes sem conta. O que é então a saudade? Porquê a tortura? Porque é que o tempo está quase sempre contra nós?
Foi como vapor. Fechei os olhos e surgiste-me. Desde então não me desapareceu essa imagem. Que invade cada pensamento. Cada desejo. Mas ainda não te consegui agarrar. Quero a versão real...
Foi como vapor. Fechei os olhos e surgiste-me. Desde então não me desapareceu essa imagem. Que invade cada pensamento. Cada desejo. Mas ainda não te consegui agarrar. Quero a versão real...
sábado, abril 21, 2007
quinta-feira, abril 19, 2007
terça-feira, abril 17, 2007
Eu duplicada...
Em vez de amarrotar folhas e de as atirar para o chão ia amarrotando palavras e frases. Dispersas ao meu redor iam-se organizando em tecidos, orgãos, até que um dia ao olhar vi um duplo de mim mesmo.
As diferenças assustavam-me menos que as semelhanças.
O duplo esteve ali sem se mover até que um dia arrojei a palavra Respirar ao chão. A frase caiu, uma corrente de ar aproximo-a do ser. Respirava.
Depois começou a escrever. As suas palavras aproximavam-se de mim e o meu ser incorporava-as.
Acabei sendo o duplo do meu duplo.
As diferenças assustavam-me menos que as semelhanças.
O duplo esteve ali sem se mover até que um dia arrojei a palavra Respirar ao chão. A frase caiu, uma corrente de ar aproximo-a do ser. Respirava.
Depois começou a escrever. As suas palavras aproximavam-se de mim e o meu ser incorporava-as.
Acabei sendo o duplo do meu duplo.
Inutilidades com sentido:
- Gesto inútil de fechar os olhos para não ver as imagens que nos passam pela mente e torná-las ainda mais nítidas na escuridão;
- Gesto inútil de suster a respiração para acalmar o passo do coração e ficar sem fôlego, acelerando-o ainda mais;
- Gesto inútil de parar de andar porque nos tremem os joelhos e sentir que o chão nos foge debaixo dos pés;
- Gesto inútil de chorar para expulsar a tristeza e ficar o coração ainda mais seco e vazio que antes;
- Gesto inútil de dizer que não desviando o olhar e denunciar o sim que queríamos gritar;
- Gesto inútil de abrir os olhos com toda a força para não chorar e as lágrimas acumularem até não caber nos olhos e caírem livremente até termos de os cerrar.
Tolos que somos, desviamo-nos dos espelhos e tentamos enganar-nos a nós próprios, mas há coisas de que não podemos fugir. Para quê mentir?
- Gesto inútil de suster a respiração para acalmar o passo do coração e ficar sem fôlego, acelerando-o ainda mais;
- Gesto inútil de parar de andar porque nos tremem os joelhos e sentir que o chão nos foge debaixo dos pés;
- Gesto inútil de chorar para expulsar a tristeza e ficar o coração ainda mais seco e vazio que antes;
- Gesto inútil de dizer que não desviando o olhar e denunciar o sim que queríamos gritar;
- Gesto inútil de abrir os olhos com toda a força para não chorar e as lágrimas acumularem até não caber nos olhos e caírem livremente até termos de os cerrar.
Tolos que somos, desviamo-nos dos espelhos e tentamos enganar-nos a nós próprios, mas há coisas de que não podemos fugir. Para quê mentir?
Observação latente
domingo, abril 15, 2007
quinta-feira, abril 12, 2007
Wallpaper
It’s coming back so fast, that I should fake this alone. You kept me back so unthinking, that I should fake this alone. Because your breath is still in me and you shape is still around and this shallow light won’t let me go, no… because even if you break my heart and even if you make things wrong, you will always be the one, you will always be my love. I will fight against those walls I will love against those walls, I will dream against those walls, I can lie against those walls, or even try to break those walls, I try to fly upon those walls, I can bring light to your wall again and again against those walls, I will sleep against those walls, I’ll bet my life to sing my songs…
quarta-feira, abril 11, 2007
alternative ending
Ela sentou-se, confortavelmente instalada em frente ao ecrã. O genérico rodou e ela embrenhou-se na história. O personagem era a criatura mais bela que alguma vez vira. Tinha a ver com os seus olhos. Aquele olhar penetrante. Hipnotizante com toda a sua melancolia. Capaz de nos perdermos nele, imersos na sedução quase perversa daquele rosto doce. Tinha o corpo pisado, marcas de combate. Sulcos profundos e fossilizados de tempos duros. Mas tinha as mãos mais suaves. Dedos esguios e de contornos perfeitos. Contrastavam com o corpo seco e robusto. No rosto, o ar jovem mas desgastado de quem luta contra o tempo. Mas tudo isso era parte do seu encanto.
Apaixonou-se. Ainda a história ia a meio e já estava convencida que era ele. Queria-o. Queria cair nos seus braços e adormecer no seu peito. Queria passar as mãos naquela face cansada e olhá-lo nos olhos. Queria perder-se. Nele.
O céu escureceu. E veio a chuva. Lavar-lhe as lágrimas do rosto. Sentia-se mais sozinho que nunca. Queria tanto um abraço. Queria tanto poder sentir aquele calor de que só ouvira falar nos livros. Como na história dela.
Era a criatura mais bela que alguma vez imaginara. Todos os dias lia e relia as páginas que a descreviam. O seu sorriso doce. O seu toque carinhoso. A pele suave. O calor do corpo. A sensualidade de todos os movimentos. Os cabelos longos. O cheiro da sua pele.
Há muito que se apaixonara. Queria-a. Queria abraçá-la com força e adormecê-la no seu peito, bem junto a si. Queria tocar a sua pele e beijar aqueles lábios do rosto mais meigo. Queria perder-se. Nela.
Ela levantou-se e correu para cima do palco. Guiada por sabe-se lá que instinto correu para a tela. E mergulhou... A queda pareceu não terminar nunca. Ele pegou no livro e releu-o de uma ponta à outra. Porém, quando folheou a última página, algo de estranho se deu. E mergulhou...
Abriram os olhos devagarinho. Ela estava deitada no seu peito. Ele tinha os braços à sua volta. Reconheceram-se de imediato. Não foi dita uma única palavra. Beijaram-se.
Ao fundo, o pôr do sol. Rolam os créditos finais.
Apaixonou-se. Ainda a história ia a meio e já estava convencida que era ele. Queria-o. Queria cair nos seus braços e adormecer no seu peito. Queria passar as mãos naquela face cansada e olhá-lo nos olhos. Queria perder-se. Nele.
O céu escureceu. E veio a chuva. Lavar-lhe as lágrimas do rosto. Sentia-se mais sozinho que nunca. Queria tanto um abraço. Queria tanto poder sentir aquele calor de que só ouvira falar nos livros. Como na história dela.
Era a criatura mais bela que alguma vez imaginara. Todos os dias lia e relia as páginas que a descreviam. O seu sorriso doce. O seu toque carinhoso. A pele suave. O calor do corpo. A sensualidade de todos os movimentos. Os cabelos longos. O cheiro da sua pele.
Há muito que se apaixonara. Queria-a. Queria abraçá-la com força e adormecê-la no seu peito, bem junto a si. Queria tocar a sua pele e beijar aqueles lábios do rosto mais meigo. Queria perder-se. Nela.
Ela levantou-se e correu para cima do palco. Guiada por sabe-se lá que instinto correu para a tela. E mergulhou... A queda pareceu não terminar nunca. Ele pegou no livro e releu-o de uma ponta à outra. Porém, quando folheou a última página, algo de estranho se deu. E mergulhou...
Abriram os olhos devagarinho. Ela estava deitada no seu peito. Ele tinha os braços à sua volta. Reconheceram-se de imediato. Não foi dita uma única palavra. Beijaram-se.
Ao fundo, o pôr do sol. Rolam os créditos finais.
terça-feira, abril 10, 2007
domingo, abril 08, 2007
Precipitação
As palavras de despedida são o epitáfio de todos os sonhos.
Tudo na vida, é melhor no início e menos bom quando se aproxima do final.
Tudo na vida, é melhor no início e menos bom quando se aproxima do final.
sábado, abril 07, 2007
Amor intravenoso
Existe algo que consegue fazer com que todos percam a razão.
Não é um delírio nem um soco na nuca. Mas passa na espinal e no resto do ser. Ouve-se, sente-se e pressente-se. É dos poucos sentimentos capaz de provocar alterações físicas nítidas e palpáveis.
Os olhos ganham um brilho activo, as mãos exalam um suor leve e acidulado, os músculos do pescoço entorpecem e o nível térmico sobe.
Algumas veias e artérias intumescem. A respiração adianta-se de mão dada com a pulsação.
A hemoglobina transparece mais facilmente na face, costas e lábios.
Vou parar senão ainda começo a achar que tudo isto deveria ser disciplina obrigatória para quem se licencia em medicina.
Não é um delírio nem um soco na nuca. Mas passa na espinal e no resto do ser. Ouve-se, sente-se e pressente-se. É dos poucos sentimentos capaz de provocar alterações físicas nítidas e palpáveis.
Os olhos ganham um brilho activo, as mãos exalam um suor leve e acidulado, os músculos do pescoço entorpecem e o nível térmico sobe.
Algumas veias e artérias intumescem. A respiração adianta-se de mão dada com a pulsação.
A hemoglobina transparece mais facilmente na face, costas e lábios.
Vou parar senão ainda começo a achar que tudo isto deveria ser disciplina obrigatória para quem se licencia em medicina.
sexta-feira, abril 06, 2007
Cenestesia

Fecho a porta e abro-te uma janela, sem cortinas, sem nada que nos possa atrapalhar, simplesmente aberta para que sintas a brisa da noite. Encontro-me só! A lua reflecte na areia felicidade, enquanto passeio acordada em busca de mim. Ouço o mar que me tranquiliza e dele voam pautas que tento ler no braile desta areia humedecida por vivências que um dia poderão ser nossas.
quinta-feira, abril 05, 2007
Walking after you
Foi como despertar. Transpor a ténue linha que nos divide o mundo em dois: realidade e sonho. Abrir lentamente os olhos e por entre a névoa ver, ao longe, de novo os raios de Sol. E deixar que o calor penetre o coração. Ultrapasse as camadas de humanidade. Deixar o esqueleto para trás e ascender a um outro plano. Encontrar aí o fôlego que faltava.
O mundo não é feito de sonhos, mas são eles que o sustentam. Respirar é preciso. O tempo pisa-nos os calcanhares e obriga-nos a correr. Mas em algum momento temos de parar. E aí?
A mesma matéria que nos forma é aquela que nos destrói. Que nos consome até ao âmago do nosso ser. E quando a demência claustrofóbica nos encosta à parede… Há aqueles que fecham os olhos e aceitam o fim. Mas outros há que não pestanejam. E com um cerrar de punho dizem basta.
O essencial encontra-se num beijo. Num abraço quente. Num olhar confortante num dia mau.
O mundo não é feito de sonhos, mas são eles que o sustentam. Respirar é preciso. O tempo pisa-nos os calcanhares e obriga-nos a correr. Mas em algum momento temos de parar. E aí?
A mesma matéria que nos forma é aquela que nos destrói. Que nos consome até ao âmago do nosso ser. E quando a demência claustrofóbica nos encosta à parede… Há aqueles que fecham os olhos e aceitam o fim. Mas outros há que não pestanejam. E com um cerrar de punho dizem basta.
O essencial encontra-se num beijo. Num abraço quente. Num olhar confortante num dia mau.
Conversa inútil entre mãos analfabetas
O tocar apenas não implica que sintas o que as mãos querem dizer, os gestos não tem forma de palavras e a sua voz é um toque inconstante entre o rouco e o grito.
Espalhar as minhas mãos pelas tuas e misturar-me com a tua pele e o teu corpo não me dá as respostas suficientes, talvez as minhas mãos não entendam a voz do movimento do teu corpo, talvez as minhas mãos não consigam formar frases e palavras com a tua pele arrepiada aos suspiros do meu toque,talvez as minhas mãos não entendam o frio que assusta o seu calor.
Talvez elas não saibam ler o livro do teu corpo, as folhas escritas ao acaso por gestos que não possuem qualquer sentido se lidos por umas mãos que não as tuas, talvez elas apenas finjam não entender e me escondam tudo num gesto de segredo.
Espalhar as minhas mãos pelas tuas e misturar-me com a tua pele e o teu corpo não me dá as respostas suficientes, talvez as minhas mãos não entendam a voz do movimento do teu corpo, talvez as minhas mãos não consigam formar frases e palavras com a tua pele arrepiada aos suspiros do meu toque,talvez as minhas mãos não entendam o frio que assusta o seu calor.
Talvez elas não saibam ler o livro do teu corpo, as folhas escritas ao acaso por gestos que não possuem qualquer sentido se lidos por umas mãos que não as tuas, talvez elas apenas finjam não entender e me escondam tudo num gesto de segredo.
Palavras cosidas
Olha aqui no meu bolso – mostrei-te – uma palavra. Às vezes tenho os bolsos rotos e de quando em quando uma foge por ser mais pesada. E mesmo agora que os costurei com o cuidado dos pontos, as palavras não ficam. E ando a despejá-las uma a uma pelo silêncio.
Todos os meus sonhos. Todos os teus sonhos – penso – e olho para as coisas como se já não fossem minhas, olho para mim. E decerto que se procurares bem nos teus bolsos me vais encontrar, talvez numa palavra, talvez num ponto costurado bem apertado e cerzido na tua pele com a coerência das paisagens. Esta noite sonhei que me lias. Não me lembro de mim. Não me lembro da paisagem. Lembro-me só de ti e de um abraço: sonho sempre com isso. Não me canso. E de escrever. Para ti. Para que me possas ler. E para que possa continuar a oferecer-te palavras.
Todos os meus sonhos. Todos os teus sonhos – penso – e olho para as coisas como se já não fossem minhas, olho para mim. E decerto que se procurares bem nos teus bolsos me vais encontrar, talvez numa palavra, talvez num ponto costurado bem apertado e cerzido na tua pele com a coerência das paisagens. Esta noite sonhei que me lias. Não me lembro de mim. Não me lembro da paisagem. Lembro-me só de ti e de um abraço: sonho sempre com isso. Não me canso. E de escrever. Para ti. Para que me possas ler. E para que possa continuar a oferecer-te palavras.
quarta-feira, abril 04, 2007
De profundis, para uma valsa lenta
Perguntas-me para que escrevo! Para quê? Não hesito em dizer-te que será para me sentir, para me pensar, organizar-me. Ter-me assim alinhada, simples, traduzida no que julgo serem as palavras certas, completa-me, sossega-me. Só depois durmo.
Prevenida contra um eventual AVC.
Prevenida contra um eventual AVC.
Sumo de limão
Até que ponto poderemos estraçalhar um texto, esfrangalhá-lo, reduzi-lo a escombros? Quantas vezes teremos de o reler até lhe arrasarmos os significados como se fossemos necrófagos minuciosos e esse mesmo texto não passasse de um corpo desmembrado que enterramos aos bocados pelos quatro cantos do mundo para mais tarde nos banquetearmos? Que raio nos passa pela cabeça para sorvemos uma banalidade literária até à última gota e a ficarmos a saber de cor, quando já a olhámos a todas as luzes possíveis e o neon da nossa imaginação lhe realça todos os sentidos onde se inscreva por hipótese a nossa cara? Porque é nos custa sabermo-nos nas entrelinhas do que o outro escreve, mas teimamos em fazer questão de nos lermos lá uma e outra vez, até darmos por nós no lugar do gato, da mobília, das vírgulas? Quantas maneiras existirão de eu me sentir mais perto de ti e de poder encostar o meu ombro ao teu queixo?
A propósito de beijos...
Beijos. De parabéns, de condolências, de bom trabalho, de boa viagem, de regresso a salvo e a casa. Beijos repenicados, como os da avó, melosos, como os da mãe, ou molhados, como os do primeiro namorado. Beijos apaixonados, beijos roubados, beijos de língua, à francesa, à esquimó. Beijos de missa, devotos, no pé de Jesus, beijos respeitosos, de filho, de aluno. Beijos de cinema, demorados, épicos, beijos para sempre. O beijo da mulher-aranha, o do vampiro, o de judas, o da serpente. Beijos fatais, beijos normais e beijos de adeus (de adeus e até nunca). Beijos soprados com uma mão, a outra a acenar, beijos de boas férias, beijos a fugir, que não há tempo para mais. Beijinhos de açucar, dos das mercearias, beijos amargos. Não me interessa de que tipo são, nem que nome lhes dás: quero-os, cobre-me com eles como se me cobrisses com uma capa rude de pastor no meio de uma serra fria. Nem um dedo à mostra, entendes?
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