... ressaca!!!quinta-feira, novembro 30, 2006
segunda-feira, novembro 27, 2006
Caixinha de segredos

Numa caixinha pequena, numa caixinha de madeira comprada na loja dos chineses, guardam-se todos os segredos. Os meus, os teus, os de todos, e também os de aqueles que se esqueceram deles por aí…
Espalho todos eles pelo chão do quarto, entre migalhas que se perderam, entre sombras de pó vejo tudo o que nunca te contei; aquilo que nunca me disseste; aquilo que os outros já não querem, mas que lhes pertence. Os segredos como brinquedos espalhados trocando-se entre si nas roupas dos seus donos, emprestados num sussurro ao ouvido, num qualquer pedaço de papel amachucado e amarelecido pelo tempo, escondidos como segredos de bolso, desencontrados entre as suas verdades e menos verdades.
Juras de amor que nunca o foram; medos confessados; a raiz da árvore dos sorrisos, areia da praia dos medos; o bilhete de comboio só de ida para um qualquer amor, rasgado em pedacinhos com manchas de lágrima.
Os seus donos? Eles próprios senhores de si a descoberto, por aquilo que deixaram espalhado por qualquer parte desta pequena caixa aberta no chão de pó e migalhas. Em cada segredo o meu nome e o teu com assinaturas de punho ou letras de forma; nomes deles e delas com letras de chuva; as datas dos seus começos, rastos de vento do dia que se perderam; mapas de caminhos entrecruzados procurando um qualquer lugar com respostas para todas as perguntas. Perfume com aroma a vários tempos, com cheiros que se misturam já quase apagados.
Na caixinha, o rosto de todas as mãos, o selo quebrado com nome de partilha e as marcas de vários dias e noites em todos os lugares daqui e dali e qualquer parte.
Os segredos órfãos sem o serem, filhos de mãe e pai incógnitos procurando-se semelhanças e chorando ou rindo por apenas serem o que são e quem são.
Na caixinha aberta todos eles a espalharam-se com as migalhas e o pó do chão.
Tens segredos para troca?
Tudo é bastante...
Fácil de Entender
Talvez por não saber falar de cor, imaginei. Talvez por não saber o que será melhor, aproximei. "O meu corpo é o teu corpo, o desejo entregue a nós". Sei lá eu que queres dizer... Despedir-me de ti, adeus um dia voltarei a ser feliz... Talvez por não saber falar de cor, aproximei... Triste é o virar de costas o último adeus, sabe Deus o que quero dizer. Obrigado por saberes cuidar de mim, tratar de mim, olhar para mim, escutar quem sou... E se ao menos tudo fosse igual a ti.
Eu já não sei se sei o que é sentir o teu amor, já não sei se sei o que é sentir. Se por falar falei, pensei que se falasse era mais fácil de entender...
É o amor que chega ao fim, um final assim assim é mais fácil de entender...
domingo, novembro 26, 2006
sábado, novembro 25, 2006
Ausência de ti
Distúrbio:
um sorriso inquieto ao amanhecer.
O sol a brincar nos teus olhos.
Dizes gosto muito de ti,
e um lugar estranho ocupa tudo aquilo que és.
Não te sinto perto – nunca te senti perto.
Pergunto sempre onde foste e nem sei de onde surgiste.
Nunca sei dos teus olhos.
Só a memória – restrita, ausente, incapaz.
Só a memória e o amanhã não existe.
E sei,
por todos os caminhos que vagueiam nas minhas mãos,
que o amanhã não existe e que amanhã não existes,
pois se me consumiste toda em insatisfação.
Nunca fui tua.
Tiveste-me entre mãos e eu nunca fui tua.
Vivi nos teus olhos, na tua cama,
rente ao teu corpo tantas vezes e tantas vezes me perdi.
Não preciso de ti.
Não preciso de ti.
Não preciso de ti assim como ninguém precisa de quem nunca se dá.
Assim como ninguém quer um fim traçado ao início.
um sorriso inquieto ao amanhecer.
O sol a brincar nos teus olhos.
Dizes gosto muito de ti,
e um lugar estranho ocupa tudo aquilo que és.
Não te sinto perto – nunca te senti perto.
Pergunto sempre onde foste e nem sei de onde surgiste.
Nunca sei dos teus olhos.
Só a memória – restrita, ausente, incapaz.
Só a memória e o amanhã não existe.
E sei,
por todos os caminhos que vagueiam nas minhas mãos,
que o amanhã não existe e que amanhã não existes,
pois se me consumiste toda em insatisfação.
Nunca fui tua.
Tiveste-me entre mãos e eu nunca fui tua.
Vivi nos teus olhos, na tua cama,
rente ao teu corpo tantas vezes e tantas vezes me perdi.
Não preciso de ti.
Não preciso de ti.
Não preciso de ti assim como ninguém precisa de quem nunca se dá.
Assim como ninguém quer um fim traçado ao início.
sexta-feira, novembro 24, 2006
segunda-feira, novembro 20, 2006
Song for a Blueheart
Water on my lips, sweet fingers open my eyes, my heavy eyes
We smile like it was the last smile on earth,
the smile of a blue heart, blue skin, blue songs.
I know, the colour is blue, maybe too much blue, I know
Make me scream I scream for you
Make me fly; I'm flying with you
Make me cry I cry for you
Water is Blue, water is blue, water is…
Never found a girl from another world
Never touch the floor with another one
Never breathe that air from another one
Never felt those eyes playing with my soul
Blue to be breath, blue to believe,
Blue to be felt by you, blue to be touched by you
Someday, somehow somewhere
The Gift
Sem palavras...
Traços sonhados
No canto da cama, no resto dos lençóis, prendo à janela uma folha branca e espero pelo sol. Fecho os olhos e traço linhas que se perdem nos rasgos dos teus olhos.
O amanhecer é tardio e a espera consome-me demasiado. Imagino as tuas mãos, alienadas, tentando rasgar a folha do outro lado do vidro, e tudo é excessivo.
Ainda me lembro de quem eras quando me ofereceste de ti, ainda me lembro que os traços que te contornavam não precisavam de ser desenhados. Em cada esquina do teu corpo havia cores diferentes que esperavam por ser esbatidas e eu, inexperiente, não lhes ousava tocar. E lembro-me de como todos os tons se compunham e te compunham numa qualquer obra de Arte.
Agora tu não estás e eu não tenho tintas para te pintar. Agora tu não estás e de nada me servem os pincéis, de nada me serve esta destreza em sonhar-te, pois se não há cores, se só há vida nas minhas mãos e não tenho onde as calar. E a folha, a folha que espera pela luz amarelece, pois as minhas mãos não param cheias de vida, de sonhos, pois ainda te sonho em qualquer tela acabada. Por isso rasgo a folha de um só golpe, rasgo a folha e devolvo-me à almofada, perco-me nos lençóis e espero que o sono me leve até um qualquer museu onde possa encontrar-te.
P.S.: Para ti, uma vez mais... na esperança que um dia aprendas a sonhar e a lutar pela tua felicidade, sem medos!
O amanhecer é tardio e a espera consome-me demasiado. Imagino as tuas mãos, alienadas, tentando rasgar a folha do outro lado do vidro, e tudo é excessivo.
Ainda me lembro de quem eras quando me ofereceste de ti, ainda me lembro que os traços que te contornavam não precisavam de ser desenhados. Em cada esquina do teu corpo havia cores diferentes que esperavam por ser esbatidas e eu, inexperiente, não lhes ousava tocar. E lembro-me de como todos os tons se compunham e te compunham numa qualquer obra de Arte.
Agora tu não estás e eu não tenho tintas para te pintar. Agora tu não estás e de nada me servem os pincéis, de nada me serve esta destreza em sonhar-te, pois se não há cores, se só há vida nas minhas mãos e não tenho onde as calar. E a folha, a folha que espera pela luz amarelece, pois as minhas mãos não param cheias de vida, de sonhos, pois ainda te sonho em qualquer tela acabada. Por isso rasgo a folha de um só golpe, rasgo a folha e devolvo-me à almofada, perco-me nos lençóis e espero que o sono me leve até um qualquer museu onde possa encontrar-te.
P.S.: Para ti, uma vez mais... na esperança que um dia aprendas a sonhar e a lutar pela tua felicidade, sem medos!
domingo, novembro 19, 2006
LOTO... para ver, ouvir, cantar e dançar...
Cuckoo Plan
Take the time to think things over
And confide in me
I got this far without ilusions
And life cant get any better
A cuckoo plan or a great idea
The place you call home
Or the place you fear
A step into madness
Or that unique sound
Get your feet back, back on the ground
Sometimes I begin to wonder
About nothing at all
I believe in walking emotions
Or whatever that means
A cuckoo plan or a great idea
The place you call home
Or the place you fear
A step into madness
Or that unique sound
Get your feet back, back on the ground
The world is waiting
Love is all around
The world is waiting
And no cuckoo plan will ever get me down
Loto actuam nas Fnacs
Os portugueses Loto iniciaram já uma mini-digressão pelas lojas Fnac.
Nestes espectáculos, a banda de Alcobaça vai apresentar "Beat Riot", o seu segundo álbum de originais.
O primeiro concerto de Ricardo Coelho, João Tiago e João Pedrosa integrado nesta tournée começou no dia 14/11, na Fnac de Gaia.
De referir que "Beat Riot" sucede a "The Club" e conta com a participação de um lote de convidados de luxo, entre os quais o baixista Peter Hook (Joy Division e New Order), que toca no single 'Cuckoo Plan' e em 'Beat Riot', e Del Marquis (guitarrista dos nova-iorquinos Scissor Sisters), que colabora na faixa 'Golden Boys'.
Para quem ainda tiver curiosidade de os ouvir e dançar numa Fnac perto de si, aqui fica a sugestão e datas da mini-digressão dos Loto:
25.11 Coimbra, 22h
26.11 Chiado, 19h
28.11 Colombo, 21h30
sexta-feira, novembro 10, 2006
Aquilo que vejo naquilo que olho
Apenas porque um cansaço se me atravessou os olhos e eu tive de fechá-los durante alguns momentos e depois, reabrindo-os, apanhei com a claridade toda ela junta, apenas por isso me apercebi que eu já não olho as coisas, já não as observo, não as distingo. Talvez seja como se eu tenha criado uns cookies do real e sempre que desperto estabeleça automaticamente uma conexão intuitiva que me repôe as ligações familiares ao meu dia-a-dia. É como se tivesse um simulacro de realidade diante de mim e seja através dele que eu estabeleço as pontes que me permitem conduzir-me pelos dias.
O meu problema agora é perceber porque é que eu fiz isto. Porque terei sido eu, pressuponho. Não vejo quem possa ter entrado no meu sistema de percepção e de recepção do mundo e por meio de alterações dos polos e dos fios de transmissão, tenha substituído este mundo real onde eu deveria viver por aquele onde realmente vivo. Teria de ser um trabalho altamente sofisticado e não creio que valha o investimento tecnológico necessário para essa façanha.
E se fui eu, porque é que eu fiz isto? O que ganho com isso? Por exemplo, neste momento estou diante desta magnífico Tejo e há uma imagem: um rebocador, um guindaste, um cargueiro e um pequeno barco para transbordo da carga. É uma imagem bonita. A grua varre o convés à procura de carga, baixa-se, recolhe a carga, iça-se de novo, e durante todo este tempo move-se. Quem estará lá? O pavilhão do barco é sueco. Há toda uma rede de conexões que me desperta a imaginação. Os marinheiros. As suas familias. A carga que transportam. A quem a vão entregar. O que declaram transportar. É um veio quase inesgotável.
Disse que há um tempo que esta imagem me era habitual. É verdade. É uma ligação de verão. É quando o estio vem que eu me detenho a olhar com mais intensidade este rio. Que redescubro o prazer de empunhar os binóculos. Ao meu lado há alguém com telescópio. A Lisboa que se deita e se levanta com o rio tem olhos sobresselentes, prótesicos. E por ser uma ligação de verão, ao retomá-la neste olhar de veraneio que por estes dias iniciei, estranhei agora este cargueiro, esta história da carga e descarga. Voltamos ao mesmo tema. Eu tenho imagens que não me deixam ver o mundo como ele é.
Devo acompanhar um pouco mais esta ideia das imagens que construo. O que me leva automaticamente para um dos mais recorrentes trabalhos de desconstrução do real que conheço. O teatro. Ouvi durante muitos anos seguidos uma frase que produz sentido em mim: "O teatro ajuda a ver o mundo". É claro que a partir dos meus melhores anos cresci ao pé de uma incansável retórica apologética dos valores e das práticas teatrais e não é por isso estranho esta naturalidade com que escutei o confiar ao teatro uma relação de maior proximidade com o mundo onde vivo. No entanto isso não basta. O teatro é um choque, uma pancada nos olhos e nos sentidos que, se vêem inseridos num campo de tensão onde o espectador também participa, forçadamente, na experiência de simulação.
Porque é que eu construo ligações familiares com o real e essas ligações, esses links, tem esse condão de me retirar de um confronto com o real? Porque e para quê? Para que é que eu preciso desse véu?
(10-06-2004)
O meu problema agora é perceber porque é que eu fiz isto. Porque terei sido eu, pressuponho. Não vejo quem possa ter entrado no meu sistema de percepção e de recepção do mundo e por meio de alterações dos polos e dos fios de transmissão, tenha substituído este mundo real onde eu deveria viver por aquele onde realmente vivo. Teria de ser um trabalho altamente sofisticado e não creio que valha o investimento tecnológico necessário para essa façanha.
E se fui eu, porque é que eu fiz isto? O que ganho com isso? Por exemplo, neste momento estou diante desta magnífico Tejo e há uma imagem: um rebocador, um guindaste, um cargueiro e um pequeno barco para transbordo da carga. É uma imagem bonita. A grua varre o convés à procura de carga, baixa-se, recolhe a carga, iça-se de novo, e durante todo este tempo move-se. Quem estará lá? O pavilhão do barco é sueco. Há toda uma rede de conexões que me desperta a imaginação. Os marinheiros. As suas familias. A carga que transportam. A quem a vão entregar. O que declaram transportar. É um veio quase inesgotável.
Disse que há um tempo que esta imagem me era habitual. É verdade. É uma ligação de verão. É quando o estio vem que eu me detenho a olhar com mais intensidade este rio. Que redescubro o prazer de empunhar os binóculos. Ao meu lado há alguém com telescópio. A Lisboa que se deita e se levanta com o rio tem olhos sobresselentes, prótesicos. E por ser uma ligação de verão, ao retomá-la neste olhar de veraneio que por estes dias iniciei, estranhei agora este cargueiro, esta história da carga e descarga. Voltamos ao mesmo tema. Eu tenho imagens que não me deixam ver o mundo como ele é.
Devo acompanhar um pouco mais esta ideia das imagens que construo. O que me leva automaticamente para um dos mais recorrentes trabalhos de desconstrução do real que conheço. O teatro. Ouvi durante muitos anos seguidos uma frase que produz sentido em mim: "O teatro ajuda a ver o mundo". É claro que a partir dos meus melhores anos cresci ao pé de uma incansável retórica apologética dos valores e das práticas teatrais e não é por isso estranho esta naturalidade com que escutei o confiar ao teatro uma relação de maior proximidade com o mundo onde vivo. No entanto isso não basta. O teatro é um choque, uma pancada nos olhos e nos sentidos que, se vêem inseridos num campo de tensão onde o espectador também participa, forçadamente, na experiência de simulação.
Porque é que eu construo ligações familiares com o real e essas ligações, esses links, tem esse condão de me retirar de um confronto com o real? Porque e para quê? Para que é que eu preciso desse véu?
(10-06-2004)
quinta-feira, novembro 09, 2006
sábado, novembro 04, 2006
Vão lá fora sentir a respiração da vida
Apago a televisão. A luz. Fico apenas com o reflexo do ecran sobre as teclas. Aprecio a escuridão quando escrevo neste blog. É o meu refúgio. Por estes dias preciso cada vez mais de um refúgio. Ponho a Nice and Sweet dos Gift. Alguém a deixou aqui para me inspirar. Aprecio muito por estes dias as pessoas que se aproximam de mim e me deixam coisas, ou que pedem que eu lhes deixe coisas, e elas e as coisas e eu, unidos num desejo sincero de uma vida outra. Há tanta gente distraída desta importância: a procura da felicidade, a sincera procura de felicidade em nós e nos outros nos aproxima, nos torna próximos. Durante estes dias pensei longamente em escrever aqui. Desejava fazê-lo. Este não é um blog como os outros. É um filho único, onde tento só vir quando imbuído de uma tenaz vontade de procurar a escrita verdadeira. Desejava vir aqui, ansiava por isso. Nunca pude. Para o Cotton Candy não escrevo em cibercafés. Que alguma coisa seja verdadeira na minha vida, penso sempre que aqui venho.
E também não sabia como estar aqui. Parecia-me entretenimento de pequena burguesa satisfeita consigo mesma vir aqui escrever. Há coisas mais importantes do que procurar a escrita verdadeira, pensava. Não, não pensava. Repetia, papagueava. A escrita, a verdadeira e a falsa, sempre esperou e fez fila para uma data de urgências que gesticulam muito tentando captar a atenção que não merecem, de que não são merecedoras. Eu escritora de posts não tenho nada mais urgente do que vir aqui e desatar a sangrar. Não há nada que possa ser mais importante. Ou melhor, na minha inutilidade, não há nada que eu saiba fazer que vos possa ser mais prestável. A única coisa que realmente aprendi na minha vida, fosse num palco, como actriz, ou na minha secretária solitária, foi a sangrar, a rebentar com as palavras antes de elas me rebentarem a mim. É verdade. Não que o faça bem. Sim, que o faço. Ouso fazê-lo. Dou sentido à minha vida tentando estar aqui na escuridão da sala a alumiar-me por dentro.
Escrevo e apago. Se alguma coisa me traz para fora da sala, quando volto apago o que escrevi. Quer dizer, apago as palavras. São bosta de boi as palavras que apago. Escrita paradoxal esta: ou de sopetão, parece que incontrolável, ou intercalada de longos silêncios. O que é que é esta forma de escrever com grandes pausas entre uma palavra e a ideia que lhe sucede? Se ainda estiverem aqui estas frases de merda é porque nada me distraiu e me levou daqui para fora e trazendo-me de novo, me mostrou a miserabilidade das palavras que aqui pus. Peço-vos um favor. Leiam estas palavras como se tivessem a ler bosta de boi ou de vaca. E não é um exercício de estilo. É a mais pura verdade. Talvez seja esta maldita guerra que não me deixa entrar na minha pele. Eu sei que houve um cessar-fogo. Não li, não vi as notícias. Espero que seja um cessar-fogo dos verdadeiros, que tenham deixado de cair bombas no Iraque ou Afeganistão. Podem pôr os palanques para o fogo de artíficio, a pirotecnia dos saldos, dos ganhos e das perdas. Dispenso o folclore. Basta-me saber que há mais umas tantas horas, dias em que o som da morte, os tambores da morte, não se fazem ouvir. Não é muito mas vivemos assim, do pouco que a terra, o céu, os mares e a boa vontade dos homens nos dão humanidade. O que eu escrevo aqui será bosta até esse dia.
Ninguém nem nada me retirou daqui, desta cadeira onde escrevo e eu assim perdi a coragem de apagar. Desculpem o tempo que vos tomei. Não vejam nestas palavras senão a busca sincera das palavras que afinal não escrevi. Talvez porque estou preocupada. A guerra ainda não acabou, está dentro de mim. Eu não preciso da inocência para nada. Precisaria da minha responsabilidade. E precisaria de a compartilhar convosco. E agora vão, não percam mais tempo, vão lá fora viver a vida que respira.
E também não sabia como estar aqui. Parecia-me entretenimento de pequena burguesa satisfeita consigo mesma vir aqui escrever. Há coisas mais importantes do que procurar a escrita verdadeira, pensava. Não, não pensava. Repetia, papagueava. A escrita, a verdadeira e a falsa, sempre esperou e fez fila para uma data de urgências que gesticulam muito tentando captar a atenção que não merecem, de que não são merecedoras. Eu escritora de posts não tenho nada mais urgente do que vir aqui e desatar a sangrar. Não há nada que possa ser mais importante. Ou melhor, na minha inutilidade, não há nada que eu saiba fazer que vos possa ser mais prestável. A única coisa que realmente aprendi na minha vida, fosse num palco, como actriz, ou na minha secretária solitária, foi a sangrar, a rebentar com as palavras antes de elas me rebentarem a mim. É verdade. Não que o faça bem. Sim, que o faço. Ouso fazê-lo. Dou sentido à minha vida tentando estar aqui na escuridão da sala a alumiar-me por dentro.
Escrevo e apago. Se alguma coisa me traz para fora da sala, quando volto apago o que escrevi. Quer dizer, apago as palavras. São bosta de boi as palavras que apago. Escrita paradoxal esta: ou de sopetão, parece que incontrolável, ou intercalada de longos silêncios. O que é que é esta forma de escrever com grandes pausas entre uma palavra e a ideia que lhe sucede? Se ainda estiverem aqui estas frases de merda é porque nada me distraiu e me levou daqui para fora e trazendo-me de novo, me mostrou a miserabilidade das palavras que aqui pus. Peço-vos um favor. Leiam estas palavras como se tivessem a ler bosta de boi ou de vaca. E não é um exercício de estilo. É a mais pura verdade. Talvez seja esta maldita guerra que não me deixa entrar na minha pele. Eu sei que houve um cessar-fogo. Não li, não vi as notícias. Espero que seja um cessar-fogo dos verdadeiros, que tenham deixado de cair bombas no Iraque ou Afeganistão. Podem pôr os palanques para o fogo de artíficio, a pirotecnia dos saldos, dos ganhos e das perdas. Dispenso o folclore. Basta-me saber que há mais umas tantas horas, dias em que o som da morte, os tambores da morte, não se fazem ouvir. Não é muito mas vivemos assim, do pouco que a terra, o céu, os mares e a boa vontade dos homens nos dão humanidade. O que eu escrevo aqui será bosta até esse dia.
Ninguém nem nada me retirou daqui, desta cadeira onde escrevo e eu assim perdi a coragem de apagar. Desculpem o tempo que vos tomei. Não vejam nestas palavras senão a busca sincera das palavras que afinal não escrevi. Talvez porque estou preocupada. A guerra ainda não acabou, está dentro de mim. Eu não preciso da inocência para nada. Precisaria da minha responsabilidade. E precisaria de a compartilhar convosco. E agora vão, não percam mais tempo, vão lá fora viver a vida que respira.
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