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c r a s h .
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é a sensação do toque
sentimos tanto a falta desse toque
que colidimos uns contra os outros só para sentir alguma coisa
A vida corre, furiosa, sem travões, agarrada ao asfalto, impulsionada pelo peso dos dias.
A vida pesa, e devora-nos…
Os nossos dramas pessoais são sempre maiores e mais importantes que os dos outros, o nosso amor um punhal de auto-flagelação. Ninguém percebe. Mas também ninguém quer perceber.
Transformamos as nossas inseguranças em bastiões e armas de arremesso, as nossas frustrações em murros no estômago, e partimos para a violência, transportando dentro do peito verdadeiras bombas relógio. Corremos a alta velocidade levando à frente quem quer que se atravesse pela frente, estejamos nós na via de sentido obrigatório em sentido contrário ou não. O poder transfigura-nos ao ponto de partirmos para a agressão dos outros, provocando tanta dor quanto aquela que sentimos, impotentes…
Temos medo de amar, de nos enlaçarmos, de nos prendermos ao outro, medo que nos magoem, que nos humilhem, nos ridicularizem, nos abandonem. Mudamos de estratégia, de defesa para o ataque. Confundimos a estratégia. Usamos e abusamos da estratégia onde esta não se aplica. Racionalizamos. Erguemos barreiras de aço ao nosso redor, aço e vidro. Tocamo-nos para além dos 8mm de espessura de vidro, e assim, o toque, sempre frio, não chega para nos confortar. Os corpos não chegam sequer para se envolverem. Vivemos na ilusão de que nos tocamos, nos conhecemos. Vivemos uma espécie de amor esterilizado, e não chegamos sequer a tentar perceber a forma e a temperatura do outro, ou cheiro, o sabor. Não nos chegamos sequer a dar…
Procuramos conforto, compreensão e obtemos nada.
Revoltamo-nos e magoamos o primeiro que nos aparece à frente…
Estamos sós, apesar de toda a gente que nos rodeia, apesar de todos aqueles que amamos, sem que o demonstremos, também...
Demonstrar amor é um risco. O risco de criar dependências, o risco de nos puxarem para o abismo, para a loucura. É mais fácil ser livre… e inerte.
Não deixamos de viver amarrados a outras coisas menos importantes, a correntes invisíveis, e de repente acontece um milagre, de repente acontece um pesadelo, de repente acontece nada.
O acaso.
O mundo é um lugar complexo. Nós somos um lugar complexo. Cada um de nós.
E ninguém entende a diferença. Somos todos diferentes e no entanto insistimos em acreditar que há quem seja ainda mais diferente, como se isso fosse anormal, anti-natural, uma fraqueza, um factor de inferioridade.
Medo. Somos um animal que alimenta um medo faminto e furioso…
Preferimos viver de relações de poder, de violência, de força. Relações inertes…
Vimos a vida a preto e braço, de contrastes marcados e contornos esbatidos, texturados.
Colidimos ao invés de nos ameigarmos.
Estranha forma de viver…
Assustadora.