Apenas porque um cansaço se me atravessou os olhos e eu tive de fechá-los durante alguns momentos e depois, reabrindo-os, apanhei com a claridade toda ela junta, apenas por isso me apercebi que eu já não olho as coisas, já não as observo, não as distingo. Talvez seja como se eu tenha criado uns cookies do real e sempre que desperto estabeleça automaticamente uma conexão intuitiva que me repôe as ligações familiares ao meu dia-a-dia. É como se tivesse um simulacro de realidade diante de mim e seja através dele que eu estabeleço as pontes que me permitem conduzir-me pelos dias.
O meu problema agora é perceber porque é que eu fiz isto. Porque terei sido eu, pressuponho. Não vejo quem possa ter entrado no meu sistema de percepção e de recepção do mundo e por meio de alterações dos polos e dos fios de transmissão, tenha substituído este mundo real onde eu deveria viver por aquele onde realmente vivo. Teria de ser um trabalho altamente sofisticado e não creio que valha o investimento tecnológico necessário para essa façanha.
E se fui eu, porque é que eu fiz isto? O que ganho com isso? Por exemplo, neste momento estou diante desta magnífico Tejo e há uma imagem: um rebocador, um guindaste, um cargueiro e um pequeno barco para transbordo da carga. É uma imagem bonita. A grua varre o convés à procura de carga, baixa-se, recolhe a carga, iça-se de novo, e durante todo este tempo move-se. Quem estará lá? O pavilhão do barco é sueco. Há toda uma rede de conexões que me desperta a imaginação. Os marinheiros. As suas familias. A carga que transportam. A quem a vão entregar. O que declaram transportar. É um veio quase inesgotável.
Disse que há um tempo que esta imagem me era habitual. É verdade. É uma ligação de verão. É quando o estio vem que eu me detenho a olhar com mais intensidade este rio. Que redescubro o prazer de empunhar os binóculos. Ao meu lado há alguém com telescópio. A Lisboa que se deita e se levanta com o rio tem olhos sobresselentes, prótesicos. E por ser uma ligação de verão, ao retomá-la neste olhar de veraneio que por estes dias iniciei, estranhei agora este cargueiro, esta história da carga e descarga. Voltamos ao mesmo tema. Eu tenho imagens que não me deixam ver o mundo como ele é.
Devo acompanhar um pouco mais esta ideia das imagens que construo. O que me leva automaticamente para um dos mais recorrentes trabalhos de desconstrução do real que conheço. O teatro. Ouvi durante muitos anos seguidos uma frase que produz sentido em mim: "O teatro ajuda a ver o mundo". É claro que a partir dos meus melhores anos cresci ao pé de uma incansável retórica apologética dos valores e das práticas teatrais e não é por isso estranho esta naturalidade com que escutei o confiar ao teatro uma relação de maior proximidade com o mundo onde vivo. No entanto isso não basta. O teatro é um choque, uma pancada nos olhos e nos sentidos que, se vêem inseridos num campo de tensão onde o espectador também participa, forçadamente, na experiência de simulação.
Porque é que eu construo ligações familiares com o real e essas ligações, esses links, tem esse condão de me retirar de um confronto com o real? Porque e para quê? Para que é que eu preciso desse véu?
(10-06-2004)
