De mãos enormes erguidas no ar, a sombra caminha rente ao chão. A sombra não dá nem sabe segurar porque a inconsistência da matéria que a define torna inviável uma vontade própria e a libertação do corpo em que permanece condenada. A sombra é um esboço de vida, uma projecção de um corpo contra luz, a impalpabilidade do ser que existe e que passa ao lado. A sombra é retrato de gente mas nunca será mais do que isso e por isso se distorce e se prolonga pelo chão. E nesse vazio de ser e na inconsistência de querer eu te encontro e te quero resgatar. Dei um passo e a distância não diminuiu. A ponte que seguro entre os dedos de nada me serve, tenho de ficar aqui na sombra da promessa que fiz de não atravessar. Suspensa nesta ponte de silêncio que me estendes e que esperas de mim. Que fazes tu por amor?...

