quinta-feira, outubro 05, 2006

Confissões às flores

As flores calaram-se hoje. Foi de manhã, cedo. Eu ainda não dormia. Creio que procurava alguma coisa na luz pura do amanhecer. Creio que o meu olhar estava distante, em algum ponto que não recordo, procurando alguma coisa que não lembro o que era, mas que sei, sinto, que era importante. Que era fundamental.
E ouvi o silêncio das flores. Ouvi-o, nitidamente. Calaram-se. Quando pensei. Quando pensei numa coisa. Que coisa era, não importa agora, porque o que importa é o silêncio das flores. Calaram-se. Creio que esperavam a tua voz. Não sei se lhes segredaste alguma coisa. Essa coisa, essa coisa que agora não importa, tinha a ver contigo. Claro. Tem sempre tudo a ver contigo. Não sou original naquilo que penso, naquilo que sinto, naquilo que expresso. Não sou. Ando em círculos e continuamente os círculos terminam e recomeçam em ti. É assim. Não o contesto. Não o tento mudar. Não creio que deva. É assim. E as flores sabem. Sempre souberam. Porque eu falo muitas vezes com as flores. Conto-lhes coisas que não conto a ninguém. Conto-lhes coisas que jamais contarei a alguém. Mesmo a ti. Há coisas que só as flores podem saber. Há coisas que só as flores conhecem. E elas calaram-se hoje. Porque eu pensei uma coisa. Uma coisa que lhes disse. Uma coisa que não creio que possa dizer a ninguém. Uma coisa que não creio que te possa dizer a ti. As flores calaram-se, acho, porque sabem que disse a verdade. Que disse uma verdade fulminante. Que disse uma verdade límpida como as próprias flores, como as borboletas, como o céu dos dias que amanhecem. E creio que esperaram a tua voz. Esperaram, creio, um reflexo dessa verdade límpida. Esperaram a tua verdade límpida. Não sei se falaste com as flores. Porque entretanto estava exausta e fui dormir. Porque entretanto o que havia a dizer era entre ti e as flores. Já não era comigo. Ainda que pudesse ser para mim. Podes dizê-lo às flores. Elas não mo dirão. Como não te dizem tantas coisas que lhes digo sobre ti. Como não te dirão o que lhes disse hoje, quando amanhecia, e elas se silenciaram à espera do vento da tua voz.
Amo as flores. Por isso lhes conto o que muda em mim por tua causa. Por isso lhes conto o que espero. Por isso lhes conto o que sei. Por isso lhes conto o que não espero e o que não sei e até o que não quero saber. Por isso lhes conto o que não muda em mim. O que não muda por existires. O que não quero que mude. O que não sei se quero que mude. O que talvez queira que mude. Conto-lhes tudo. Conto-lhes todas as minhas coisas. As minhas certezas. As minhas dúvidas. A forma como umas se transformam nas outras e como eu, no meio dos dias, vou passando de umas para outras, agarrando-me a umas e a outras, para chegar ao outro dia, para continuar perto das flores, para continuar neste caminho que tem a ver contigo, não sei se perto, se longe, não sei se na presença ou na ausência, mas que sei que tem a ver contigo.
As flores calaram-se hoje. Falarão logo. Quando eu as procurar. E devolver-me-ão o que lhes dei esta manhã. É sempre assim. Devolvem-me o que apreendo. Devolvem-me o que percebo. Devolvem-me as coisas que surgem, no meio da vida, como clarões impossíveis, como verdades incontornáveis, como coisas que tornam mais mágicos os dias, mesmo que essas coisas fiquem para sempre, como um todo, guardadas dentro de mim. Depois sairão. Nas palavras. Escritas. Faladas. No olhar. Na minha interacção com as coisas, essas verdades sairão de mim para o mundo, e serão a forma como eu vejo o mundo e tudo o que me rodeia. Porque é sempre assim. Porque o que aprendo, conto às flores. E as flores contam-me o que aprendo. E o que aprendo com as flores sai nas minhas palavras. Não é que entenda muito. Mas às vezes acredito que entendo coisas fundamentais. E sei que as flores, sempre as flores, as entendem. Porque a essência das flores é a mesma essência dessas coisas fundamentais. E essa essência é a minha também. E é a tua, eu sei.
Posso simplificar tudo isto. Logo, quando as flores me disserem. Eu lembro-me do que lhes disse. Eu lembro-me do que me assaltou com a força de uma vida a nascer dentro de mim. As coisas essenciais. As coisas puras. As coisas que se descobrem no reverso de outras coisas. O que se vê na essência. O que se vê na nudez dos momentos. O que se vê no tumulto, no turbilhão, nas grandes agitações. Há algo que permanece, puro como uma flor, límpido como água. Há algo que se vê em tudo. Há algo que vejo em todas as coisas. Há algo que às vezes te digo.
Há algo que as flores sabem. Há algo que eu sei. Há algo que tu sabes.

É uma transparência. Uma imagem no reverso dos dias. Uma inscrição no tempo.

Uma coisa essencial que renasce em todas as flores, todos os dias. Está nas pétalas, no cálice, no caule, no pólen. Está no cheiro. E está no silêncio.

Está sempre nas flores. E em mim. E em ti. E no mundo.